Ó O HÊIT!

Por: Danilo Santos

 Nelson, homem trabalhador e humilde. Casado com Lúcia, exemplar dona de casa. Desde criança, Nelson dedica a vida ao trabalho. Cidade pequena, onde as oportunidades de trabalhos formais são escassas, Nelson trabalhou a maior parte da vida na lavoura da roça. Conheceu Lúcia numa missa de domingo. Lúcia vivia da casa para a igreja. Sair à rua, só se acompanhada pelos pais. E tinha hora certa para voltar. Com o tempo, Nelson fez uma economia e comprou uma casinha na cidade. Casou-se com Lúcia e mudou de atividade econômica. Comprava leite na roça e revendia na cidade. 

Após a entrega do leite aos fregueses, Nelson passava a tarde trabalhando com consertos de carros numa pequena oficina da própria casa. Poucos tinham carro na cidade e assim dava para Nelson conciliar as duas atividades, atendendo ambas categorias de clientes. Aprendeu Mecânica de automóveis, como se diz no interior, aprendeu "na raça", pois Nelson não tinha Educação formal. Homem de pouca leitura.

E assim foi indo a vida de Nelson e Lúcia por uns anos. Com o tempo, Lúcia foi fazendo amizades, conhecendo novas amigas que a visitava em casa. Como é bom cultivar novas amizades! A monotonia do cotidiano amenizada pelos mexericos entre as amigas. Há filósofos que creditam os mexericos como dom natural das mulheres. Prova disso é a ida ao banheiro em dupla. O banheiro é como se fosse um congresso feminino, onde se parlamenta segredos. Talvez, em algum banheiro em alguma parte do mundo, haja revelações que nem a CIA e a KGB tiveram acesso, como por exemplo, quem matou John Kennedy. Ou onde Elvis passa o resto da sua vida, longe dos holofotes. 

Alguns mexericos difundidos pelas mulheres até tiveram repercussões históricas. Podemos citar como exemplo os mexericos relacionados à vida da rainha Maria Antonieta, esposa do rei Luís XVI, da França. Maria Antonieta acabou guilhotinada, sob acusações sem provas de que molestava sexualmente os próprios filhos. Ah, o mexerico!

Outra característica do congresso doméstico feminino é o desenvolvimento de intrigas entre os casais. Algumas, que se dizem amigas da esposa anfitriã, passam a confabular contra o esposo anfitrião. A esposa anfitriã, aos poucos vai cedendo ao hipnótico círculo das cobras que se dizem suas amigas. E assim se sucedeu com Lúcia. Discussões entre Lúcia e Nelson começaram a surgir. Lúcia chorava e as "amigas" lhe cediam o ombro amigo. "Eu não tenho nada com isso, mas vou te dizer o que penso. Se ele não te faz feliz, deixe-o! Minha casa está aberta para você." 

Essas intrigas sempre são sucedidas por ilusões extraconjugais. A mente da esposa, envenenada pelas falsas amizades, passa a ver o marido como o Corcunda de Notre Dame. O príncipe encantado, qualquer sedutor mau caráter. Por isso é muito importante o desenvolvimento da maturidade. Somente a maturidade previne a vida doméstica de tais males. 

O tempo passou e as coisas só foram piorando. Lúcia, que antes não saía de casa, passou a sair com as amigas. Ir na manicure, cabeleireiro, aulas de piano. O fato é que, apesar das alegadas aulas, Lúcia não aprendeu nem o campo harmônico de Dó. Nelson confiava em Lúcia. Jamais passou pela cabeça dele que ela estivesse pulando a cerca ou coisa do tipo. 

Certo dia, Nelson saiu para entregar o leite. Lúcia se aproveitou da sua ausência e foi se encontrar com o amante. Somente as "amigas" sabiam da infidelidade de Lúcia. O amante era um forasteiro que veio da cidade grande. Lúcia chegou na casa dele pelos fundos, onde havia pouco movimento de pessoas. Nelson, entregando leite. Pobre Nelson! Lúcia entrou. O amante lhe disse: 

__Vou tomar um banho. Você me espera na cama. Mandei um amigo de confiança me comprar um maço de cigarros Eight. Quando ele chamar, mande entrar. 

Nisso, Nelson passava pela rua, montado no cavalo. Como é típico de cidade pequena, com fortes raízes culturais do campo, algumas palavras são pronunciadas com dicção distinta da palavra formal. Nesse sentido, vendedores de leite não gritam "Olha o leite!". Gritam "Ó o hêit!" E foi justamente o que aconteceu. Nelson gritou na rua: 

__Ó o hêit!

Lúcia, de dentro da casa, gritou: 

__Pode entrar!

Nelson entrou e exclamou: 

__Lúúúcia!

__Neeelson!

__O que faz na cama desse forasteiro?

Os neurônios de Lúcia entraram em curto circuito. 

__Nelson! Se eu te contar, você pode não acreditar. Mas eu só estou aguardando fumo!



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