ZULEICA RABO DE CAVALO
Por: Danilo Santos
Cidadezinha do interior do sul de Minas Gerais. Década de 1950. Calma e pacífica, exceto em épocas de eleição. Aí o tiro comia solto sob o mando dos coronéis. A moralidade estava na boca de todo mundo, vida tradicional, da honra, da filha que se casa virgem, que vive na igreja... Porém, como se sabe pelos livros de História e memorialistas, em toda cidadezinha do interior onde se pregava a moralidade, havia a igreja do Diabo, na qual Messalinas eram o mal necessário para os homens de bem. Afinal, o amor à esposa ou à pretendente a esposa. E as fantasias de Dionísio, paixão da carne, no lupanar. É no lupanar que o garoto aprende a arte e os segredos de Dionísio. Muitas vezes, apresentado às Messalinas pelo próprio pai, exemplo de honra e virilidade. Mas há casos em exceção, como por exemplo, dos garotos da zona rural. José Lins do Rêgo, no livro Menino de Engenho, já denunciou uma situação bem peculiar da zona rural brasileira: os meninos iniciam a arte de Dionísio com éguas e vacas.
Nessa cidadezinha havia um sítio no qual vivia o garoto Zeca e seu pai Tonho. Tonho já estava bem debilitado pelos longos anos de trabalho e ensinou a Zeca tudo o que fazer para administrar o sítio. Zeca poucas vezes ia para a cidade. Um dos seus grandes passatempos era a égua Zuleica. Grande amor carnal do garoto. Como na vida nada dura para sempre, um dia Zuleica morreu após uma picada de cascavel. O mundo desabou para Zeca. O garoto definhava a cada dia, tristeza profunda. Percebendo a angústia do filho, Tonho disse:
__Zeca, ocê anda com a cuca fora dos eixo. Procê dá uma animada, ocê precisa saí um pouco. Por isso, a partir de amanhã ocê que vai pra cidade fazê a entrega do leite pros freguêis. Ocê nem precisa sabê o nome deis. É só dispejá o leite nas leitera que fica em cima dos muro ou em frente as casa. No finar do meis é só recebê o acordado com os freguêis.
E assim se sucedeu. Zeca ia todo dia para a cidade entregar o leite, montado a cavalo. Tímido, falava só o necessário com os fregueses. Cabisbaixo, Zuleica ainda era uma forte dor no seu coração.
Um dia, voltando para o sítio, Zeca passava em frente ao lupanar, que ficava na zona periférica da cidade. A Messalina chefe o chamou:
__Menino! Ei! Menino! Venha cá que eu quero falar com você.
__Diga, senhora!
__Preciso que você me venda todos os dias pelo menos a metade de cada latão de leite que você traz do sítio.
__A senhora vai me discurpá, mai eu não posso. O pai já tem os freguêis certo e nessa época de seca as vaca não produiz o suficiente.
__Chega aqui dentro! Quero lhe fazer uma proposta. Veja, tenho aqui novas "inquilinas" que chegaram a pouco. Vieram da cidade grande. Algumas falam até Francês. Isso custa dinheiro. Manter a casa com tais beldades, numa cidadezinha dessas, não é fácil. Por isso, preciso de leite para fazer doces e salgados, batidas para os fregueses, e assim aumentar a receita da empresa. Você pode muito bem bombar a metade dos galões e atender a freguesia do seu pai. Nem vão perceber.
__Bombar?
__Aguar o leite. Você me deixa a metade e a outra metade para a sua freguesia você bomba o leite com água. E em troca, você pode escolher uma das beldades que aqui estão. Esta aqui é Mary. Esta, Jennifer. Esta, Petit Francini. Esta, Zuleica...
__Zuleica! Zuuuleeeica!!
Esse nome despertou em Zeca uma fagulha de ressurreição afrodisíaca no peito. A proposta da Messalina chefe era a partir de então, irrecusável.
__Zuleica, leve-o ao quarto e assine o contrato com o garoto.
E assim foi feito. Zeca nunca havia ficado com uma mulher na vida. Para sua vantagem, a defunta Zuleica o iniciara na arte de Dionísio.
__Nossa, Zeca! Três bombadas seguidas! Pensava que você fosse um bobinho. __disse Zuleica.
Nos dias seguintes, saiu tudo como o combinado: leite aguado para os fregueses e leite puro para o bordel. Depois, três bombadas com Zuleica. Mas faltava alguma coisa em Zuleica que Zeca não tinha coragem de pedir. Eis que um dia apareceu no bordel um mascate da cidade grande, trazendo artigos eróticos. Entre os artigos, havia um acessório interessante e exótico que os homens da cidadezinha nunca viram: um rabo de cavalo. Para quem já foi em sex shop sabe do que se trata. Alguns até vêm com luzinha embutida. Zeca não pensou duas vezes. Comprou tal acessório para Zuleica. O acessório fez sucesso entre os homens de bem da cidade. Como de costume, Zuleica ganhou um apelido: Zuleica Rabo de Cavalo. Esse apelido, como veremos adiante, geraria confusão por falta de patente. Isso por que na cidadezinha havia uma baixinha, gordinha, que usava um longo cabelo preso pelas costas, como um rabo de cavalo. O traquejo do corpo no andar, chacoalhava o cabelo, como faz o cavalo para espantar as moscas. O nome dela, Zuleica. Apelido, Zuleica Rabo de Cavalo.
Os dias foram se passando e a fama da Messalina Zuleica Rabo de Cavalo foi se difundindo pelas cidadezinhas da redondeza. O problema é que por conta de informações desencontradas, Zuleica Rabo de Cavalo, a baixinha, passou a sofrer assédios de forasteiros, de homens que vinham de outras paradas. Batiam-lhe à porta. E ela era uma freguesa de longa data de Tonho, pai de Zeca. E como Zeca apenas deixava o leite na leiteira em frente à porta de Zuleica, nunca ele saberia que havia outra Zuleica Rabo de Cavalo.
Zeca estava perdidamente apaixonado pela Messalina. Certo dia, disse a ela:
__Zuleica, se ocê me deixá e ir embora com o Getúlio, dou cabo da minha vida. Não sei vivê sem ocê. Sei que o Getúlio tamém pode ser capaz de fazê arguma burrada por ocê, mai aí a gente resorve de homi pra homi. Deixe essa vida e vem morá comigo no sítio!
__Zeca, também gosto de você. Mas devo-te confessar que estou dividida. Getúlio, capanga do coronel Teodósio, anda armado e pode me matar se eu for embora com você.
__Óia, amanhã eu não vou passá por aqui. O pai vai vim recebê dos freguêis pessoarmente. Coisa de dinheiro é só com ele memo. Vou aguardá a sua decisão. Minha vida tá nas suas mão.
Perseguida pelos assédios, Zuleica, a baixinha, foi embora da cidadezinha. Desapareceu. Grande perda para a receita de Tonho. Getúlio Vargas, presidente do Brasil, se suicidara com um tiro no peito. Quanta tragédia!
Tonho, homem que guardava um luto de mais de 20 anos pela amada esposa, nunca sequer desejara outra mulher. Olhar em direção a um bordel, para o velho Tonho já era um grande pecado e afronta à memória da amada esposa. Na cidade, a morte de Getúlio estava na boca do povo. Tonho recebeu dos fregueses e voltou para o sítio. Tonho, abalado pela morte do Pai dos Pobres. Chegou ao sítio, desceu do seu cavalo e foi ter com Zeca.
__Zeca, agora não posso falá procê os detalhe. Tô até passano mal com tanta notícia ruim.
Lágrimas escorriam dos seus olhos. Tonho estava a ponto de ter um mau súbito. Sem quase nada de forças para falar, disse:
__Getúlio pegou o revórvi. Foi um tiro certero no coração. Zuleica Rabo de Cavalo foi-se embora.
Alguns minutos depois, a Messalina Zuleica chegava ao sítio com as suas malas. De longe, avistou um corpo que pendia do galho de uma árvore, com uma corda no pescoço. Era Zeca, completamente sem vida.
Comentários
Postar um comentário