A BANGUELA
O ano é 1989. Quatro amigos da cidade resolveram partir para um baile na roça. Rodolfo tinha um Fiat Uno vermelho. Acompanhado pelos amigos Paulo, Julio e João (nomes fictícios), ligou a ignição e partiu para a aventura. Sábado à noite, estrada de terra e uma Natureza exuberante. Ah, como é fascinante o bucólico espírito da roça! Os quatro amigos, antes de chegarem ao baile, fizeram alguns itinerários etílicos pelas famosas vendas de beira de estrada. O etílico tem o poder de aguçar o que há de mais poético nos poetas de longa data e também nos poetas da 2ª, 3ª, 4ª divisão. É sob o poder do etílico que grandes declarações de amor são feitas, que grandes amizades são refeitas. O etílico tem o poder de transformar um simples homem num Pavarotti em noites de inspiração musical. Ah, o etílico! O mel dos poetas!
Os quatro amigos chegaram ao tão esperado baile. O ambiente era um salão feito de tábuas, coberto com telhas brasilit. Havia pouca luz, resultando num ambiente de intensa penumbra. E dá-lhe etílico! Chegou a hora da dança. Quanta moça linda! Não dava para ver perfeitamente os rostos, mas as curvas da viola denunciavam a beleza de Afrodites. Pares dançando coladinhos, na doce inocência bucólica da noite. As horas passam rápido. E o etílico domina rápido também. Chega o momento da moleza nas pernas e da sonolência repentina. Rodolfo foi o primeiro soldado abatido pelo cansaço.
__ Rapazes, eu não aguento mais. Vamos embora?
A noite estava magnífica e os outros três amigos resolveram ficar. Rodolfo foi embora. Os amigos que ficaram depositaram confiança em alguma carona para a cidade. Essa confiança logo foi pro brejo, uma vez que não conheciam ninguém na festa. O jeito era dormir debaixo de alguma árvore. E lá foram os três. Mas a noite era de inverno. E noite de inverno na roça é noite no Alaska. Paulo pediu informação sobre algum lugar no qual poderiam passar a noite. Um matuto disse: "Ocêis podi passá a noite ali na banguela. É logo em frente aquele pinheiro".
Os três amigos, exaustos, andaram até o local indicado e nada de banguela. O local era um planadão. Mas havia uma solitária casa na beira da estrada. Paulo bateu à porta e uma moça abriu. "Moça, por acaso você saberia nos dizer onde meus amigos e eu poderíamos passar a noite?" A moça respondeu: "Como ocê é um moço bunitu, ocêis tiveram sorte. Podi passá aqui em casa. Mai só não faça muito baruio pra não cordá o pai ca mãe." Que sorte dos três amigos! Uma dessas se acerta uma em um milhão de vezes!
Paulo foi o que mais se deu bem. Dormiu quentinho nos braços e nos doces lábios da moça. Até passou a ela seu endereço na cidade. Aqueles beijos macios como luvas de seda mereciam uma revanche. "Semana que vem eu apareço lá cas minha prima. Os amigo seu vai adorá conhecê as prima."
De manhã os três amigos se levantaram e foram embora antes dos velhos acordarem. Pegaram a primeira jardineira que ia pra cidade. Os dias foram passando. Paulo está na cama, quando ouve a campainha tocar. Abre a porta. Três moças. Uma totalmente desdentada, boca murcha, diz: "Que sodade docê, moço!" Uma outra, pergunta: "Pregunta dos amigo dele, Banguela!"
Ah! o etílico! Doce mel do amor!
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