A LOCADORA DE VÍDEO

 Em tempos de Netflix, a geração de hoje nunca irá saborear  a experiência de alugar um filme numa locadora de vídeo de fita k7. O filme era o menos importante, pois no processo da escolha, o bom era a sociabilidade que se desenvolvia. Para a minha geração que foi criança e adolescente na década de 90, a sociabilidade começava com o proprietário da locadora, uma vez que para se alugar filmes mais picantes, e éramos menores de idade, tínhamos que ter lábia para convencer o dono do estabelecimento. Geralmente a locação das fitas acontecia nas sextas. Alugando 3 fitas, você poderia entregá-las na segunda. 

O legal era quando íamos em grupo com amigos para a locadora. O ruim era quando éramos acompanhados por alguém da família e que fosse fã dos filmes do Mazaropi. As fitas dos filmes do Mazaropi eram velhas e acabavam sujando o cabeçote do vídeo k7. Hoje, por conta da minha formação em História, e adoro História do Brasil, hoje curto filmes nacionais. Mas na década de 90 eu nem chegava perto da prateleira dos nacionais. Gostávamos mais era dos filmes norteamericanos mesmo. Aqueles com resquícios dos bombadões da doutrina Reagan. Após assistir Stallone Cobra, meus amigos e eu compramos palitos de dente e passamos a usar óculos escuros. Imitávamos a forma de falar e de se vestir dos fodões do cinema. Algumas falas até ficaram gravadas na minha memória, e acredito que na de milhares de cinéfilos: "Hasta la vista, baby!", "Meu nome é Bond, James Bond.", "Eu sou Castor Troy", falas de impacto, acompanhadas de uma postura fria do personagem. 

Após a escolha e locação, vinha o momento de juntar a galera em casa. Era gente no sofá, no chão, na cadeira. Houve dias que passávamos a madrugada consumindo os filmes alugados. Na segunda, entregávamos as fitas rebobinadas. Sem rebobinar, pagava-se multa. O espaço da locadora também era propício para rápidos beijos em garotas as quais nos davam bola. O fundo da locadora, na penumbra das prateleiras. 

Mas de tudo o que narrei acima, falta uma adorável lembrança a contar e que nunca falei a ninguém. O que mais me induzia ir à locadora não eram os filmes. Era o trajeto até a locadora. No trajeto, havia uma casa, numa rua estreita e pouco frequentada. Lá, sempre brincava uma garota de cabelos curtos e bem lisos, rente ao ombro. Usava um lindo vestido azul com bordados rosa. A bola com a qual ela brincava solitariamente sempre vinha em minha direção, acredito eu, propositalmente. Valia a pena esperar o fim de semana por aqueles 40 segundos de ida e 40 segundo de volta. Palavras não eram ditas. Mas em alguns momentos da nossa vida, a memória é marcada para sempre com o silêncio de olhares que se gostaram, ainda que num átomo de tempo no teatro da existência. 

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