ELEIÇÃO EM BANGUELÂNDIA

 Se tem um momento em que o pobre se sente digno da calçada da fama, esse momento acontece em época de eleição em cidade pequena. Há uma inversão da ordem hierárquica das coisas. Os candidatos ao pleito desenvolvem uma postura dinâmica em relação às suas atividades cotidianas. Aí surge o candidato uber, aquele que dá carona para todo mundo. Tem também o candidato assistente social, aquele que dá cesta básica. O candidato pedreiro, que dedica um tempinho para sentar uns tijolos e sair na foto com capacete. O candidato ator de novela mexicana, que chora ao falar da própria vida sofrida. O candidato garçom, que serve bebidas ao povo. O candidato saúde, aquele que paga consultas médicas. O candidato beato, que frequenta todas as igrejas. O candidato Rubinho Barrichello, aquele que posterga as obras até o último ano do mandato. Afinal, torrar promessas nos primeiros anos de mandato é análogo a uma ejaculação precoce no que diz respeito ao marketing político: o povo tem memória curta. 

Que bom seria se tivesse eleição todo ano! 

Caso peculiar aconteceu numa cidadezinha do interior de Minas. Devido aos anos de desleixo do poder público, o povo carecia de Educação, saúde e renda para sobreviver. A maioria do povo era banguela. O prefeito Tibúrcio, coronel, tinha poder sobre os jornais e a vida alheia. Era o Luís XIV, o Rei Sol. A prefeitura, seu Palácio de Versalhes, onde sua corte sugava recursos públicos. Trinta anos no poder, ninguém era capaz de vencer Tibúrcio nas eleições. Eis que um dia apareceu na cidade um bacharel de Direito, vindo de São Paulo. O nome dele, Dr. Bonifácio. 

Homem das letras e ideias liberais, Bonifácio logo bancou uma tipografia para colocar nos jornais suas propostas. E foi na Gazeta Liberal que publicou seu primeiro artigo. 

"Há pouco que cheguei a esta cidade e percebi o quão carente está o povo de um governo honesto e racional. Para o bem do povo, um governo não pode pender para a política do homem cordial, na qual as emoções corrompem a administração pública e transforma a prefeitura em um cabide de emprego. A esfera privada não se mistura com a esfera pública. O povo desta cidade, psicoadaptou-se às arcaicas práticas políticas dos coronéis. E um povo que se acomoda a receber migalhas, torna-se escravo dos que comem banquetes todos os dias. 

Meu nome é Bonifácio. E uma das minhas principais propostas de governo é investir numa saúde pública de qualidade. Pretendo começar investindo na saúde bucal deste sofrido povo, que merece sorrir com novos dentes na boca. Povo com boa saúde bucal se alimenta melhor e tem um físico mais saudável. Tais benefícios resultarão numa inteligência coletiva e em mais autonomia cidadã. Tenho dito que um povo exerce cidadania pela boca. Povo desdentado é povo pau mandado."

Tibúrcio respondeu na Gazeta do Povo: 

"Meu querido e amado povo. Chegou nesta cidade um forasteiro com ideias que visam a corrupção da moral e da família de bem. Nesta cidade sempre fiz um governo para o povo. Mesmo com poucos recursos e pouca ajuda estadual e federal, a prefeitura sempre esteve aberta ao homem simples à procura de auxílio. Geramos emprego, geramos crédito aos famintos. Se o povo desta cidade é banguela, isso se deve à simplicidade do bem viver. O povo daqui não tem luxo. Vive sua bucólica vida no campo, contemplando o azul do céu e o doce perfume das flores. O suor que escorre pelo rosto não é sentido como árduo trabalho, mas como o bálsamo, o elixir da essência bucólica da vida. Povo sorridente, mesmo sem dente, sempre está contente."

A máquina pública de Tibúrcio redobrou o assistencialismo ao povo. Tibúrcio contratou fotógrafos profissionais e estampou nas capas dos jornais seu abraço a uma jovem e simples moça banguela. Se a imagem viesse acompanhada de uma música de fundo, a trilha poderia ser de algum clássico de Cristopher Reeve, à altura de Em Algum Lugar do Passado. No marketing político, podemos encontrar em Tibúrcio a estratégia da emoção, do sentimento. Na memória coletiva do povo, o populista é o pai. É o que irradia proteção. Cidadania é uma palavra difícil de compreender, por isso é mais fácil se guiar pela emoção. Bonifácio, por mais que tentasse incutir na mente do povo suas ideias liberais, suas palavras soavam como Mandarim a um ouvido Tupi.

As eleições chegaram e Tibúrcio ganhou de lavada, como o esperado. A emoção venceu a Razão. Como de costume, foi servido ao povo um grande banquete em praça pública. Em homenagem à gratidão popular, até um novo nome a cidade recebeu. Chamava-se Descalços. Passou a se chamar Banguelândia. 

Povo contente
Não precisa ter dente
Para  comer o que lhe serve
Encher o bucho carente
Basta saber votar
No Tibúrcio, homem da gente

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