O PROFESSOR ANALFABETO

 Há muitas maneiras de se ensinar alguma coisa a uma criança. Seja por meio de exemplos práticos, seja por meio de textos, seja por meio da disciplina doméstica. Na África, em algumas tribos, as crianças aprendem tudo sobre a vida ouvindo os contadores de histórias conhecidos como griots. Os griots passam anos decorando narrativas fantásticas, até não deixarem passar um verso sequer do que lhes foi contado pelos mais velhos. Nada é escrito. Tudo é contado pela tradição oral. 

Na França, um dos países onde se mais lê no mundo, a criança também é iniciada pela tradição oral. Os pais lêem para seus pequeninos e eles desenvolvem a imaginação. Aguçada a imaginação, aprender o código das letras passa a ser um processo menos trabalhoso. Imaginação e dúvida sempre serão o melhor combustível para o desenvolvimento de uma mente reflexiva, ou como cantava Raul Seixas, uma metamorfose ambulante. 

Quando criança, eu sempre admirava a figura do meu avô materno. Na igreja ele lia a Bíblia e o hinário com grande maestria. Eu pensava: "Quando eu crescer, quero ser como meu avô". Certo dia, pedi a ele que me ensinasse a ler. Ele pegava um gibi e lia histórias fantásticas, mas a aula sempre era adiada por algum motivo que não me lembro. Na escola, as primeiras palavras que li foram "bebê" e "escada". Depois disso, com a imaginação já trabalhada pelo professor meu avô, comecei a produzir textos fantásticos, os quais sempre iriam parar nos murais da escola como um dos destaques. 

Comecei a ler fábulas. Mas o grande primeiro livro que li na vida foi um verdadeiro clássico: Viagem à Lua, de Júlio Verne. Eu me imaginava dentro daquele foguete da História. Interessei-me por Ciência. Enfim, após esses eventos, um dia encontrei um caderninho de capa dura, verde. Abri o caderninho e vi que ele estava preenchido repetitivamente com o mesmo nome. A letra era puro garrancho, mas notei que era o nome do meu avô. Perguntei a ele o motivo de ficar escrevendo o próprio nome no caderno. Ele respondeu: "Não tive oportunidade de frequentar escola. A vida era só trabalho. A gente de pés descalços trabalhava para ter o que comer. Por não saber ler e nem escrever, o fazendeiro tomou nossa terra. Um amigo escreveu meu nome e disse para eu copiar as letras até que elas ficassem iguais ao modelo que ele me passou. Saber escrever o próprio nome já é um grande passo para a conquista da dignidade."

Essa foi uma das maiores lições que tive na vida. Aprendi que se você for inspiração para alguém, determinadas limitações só devem vir à tona após a concretização do autoaprendizado daquele o qual você inspirou a buscar conhecimento e sabedoria. 

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